Nascido da necessidade de reinventar o espaço urbano e impulsionado por um espírito de subversão, o skate sempre teve a criatividade como seu motor. Transformar ruas e praças em palcos para manobras desafiadoras exige uma dose de improviso e uma assinatura individual, o que inevitavelmente se reflete na estética de seus praticantes. A moda, atenta a essa efervescência cultural, encontrou no universo do skate um terreno fértil para expressão e inovação.
“Observar uma sessão de skate é perceber a diversidade de estilos, tanto nas manobras quanto no vestuário. Essa vontade de se expressar de maneira única é onde a moda encontra o skate”, comenta Vitória Mendonça, 26 anos, skatista que personifica essa fusão.
Para Mendonça, peças como o colete representam uma liberdade de movimento essencial para a prática, ao mesmo tempo que conferem confiança ao visual. As calças amplas, conhecidas como baggy, um elemento intrínseco à cultura do skate, continuam a ditar tendências, provando sua relevância atemporal.
O reconhecimento de Vitória Mendonça transcende as pistas. Ela já colaborou em coleções de moda com a Element Skateboards e, em 2024, foi convidada pela Adidas Skateboarding global para customizar uma colorway exclusiva de um tênis. Essa iniciativa, onde um artista define as cores e estampa seu nome em um modelo já existente, é um marco significativo.
“Foi um momento de grande emoção e um passo importantíssimo para mim, como mulher e mulher negra. Sinto que essa conquista é de todas nós, mulheres que andam de skate e nutrem seus sonhos, porque sabemos o quão desafiador é alcançar esses espaços”, celebra Mendonça.
Ocupando Espaços na Moda
A essência contracultural do skate, marcada pela apropriação de espaços públicos de forma não convencional, já foi vista com desconfiança. No entanto, enquanto a prática enfrentava resistência social, uma estética particular florescia, destinada a se tornar uma das principais influências na moda contemporânea.
A funcionalidade é primordial: roupas que garantam conforto e total liberdade de movimento são indispensáveis. Por isso, as peças amplas, que não restringem o corpo, tornaram-se sinônimo do esporte. A durabilidade e a aderência dos tênis, cruciais para a segurança e o desempenho na lixa, também são fatores determinantes.
Márcio Banfi, stylist e professor da Faculdade Santa Marcelina, relembra a influência dos anos 90: “Com a ascensão do grunge, vimos o surgimento de calças largas, camisas oversized e gorros. A moda skatista, em sua essência visual, tem mudado pouco ao longo do tempo, incorporando novas marcas e elementos do punk e do hip-hop.”
Banfi destaca a crescente presença da silhueta barrel nas vitrines. “Essas calças estão em alta há cerca de quatro anos. Hoje, não as considero mais uma macro tendência, mas sim uma peça que veio para ficar e que pode ser adotada por qualquer pessoa que deseje construir um estilo próprio, independentemente de praticar ou não o esporte.” Assim, o que nasceu nas ruas se consolidou no guarda-roupa casual, transcendendo suas origens.

