A abordagem da sexualidade e das transformações corporais na adolescência representa um desafio para muitos jovens. No caso de indivíduos no espectro autista (TEA), essa comunicação tende a se tornar ainda mais complexa e cercada de tabus. A ausência de um diálogo aberto sobre o tema não apenas abre portas para a desinformação, mas também expõe esses jovens a riscos significativos à saúde, conforme aponta uma pesquisa recente da Universidade Federal de Alagoas (UFAL), publicada na revista Ciência & Saúde Coletiva.
Adolescentes com TEA vivenciam as mudanças hormonais da puberdade de forma semelhante aos seus pares neurotípicos. Contudo, a interpretação dessas transformações pode diferir. O surgimento de pelos, a primeira menstruação ou as alterações na voz, por exemplo, podem não ser imediatamente compreendidos. Além disso, o padrão social atípico frequentemente observado em pessoas com TEA, que se manifesta como timidez e inibição, pode dificultar a troca de informações sobre esses assuntos com colegas.
Essa dificuldade em decifrar normas sociais pode levar a uma compreensão limitada de conceitos como limites, privacidade e as expectativas relacionadas ao próprio corpo e ao dos outros. Consequentemente, esses jovens se tornam mais suscetíveis a infecções sexualmente transmissíveis (ISTs), gestações não planejadas, situações de violência e à incapacidade de identificar e relatar abusos.
O impacto do nível de suporte na vulnerabilidade
Os níveis de suporte para indivíduos autistas são definidos pela necessidade de assistência contínua. O nível 1, por exemplo, indica uma demanda de baixo suporte, com desafios mais sutis na comunicação social e rigidez comportamental, mas com preservação da autonomia em atividades como estudo e trabalho.
O nível 2, por sua vez, requer um suporte moderado, com prejuízos mais notáveis na comunicação e na adaptação a novas situações, demandando apoio frequente no cotidiano. Já o nível 3, que envolve a necessidade de suporte elevado, caracteriza-se por limitações significativas na comunicação e na autonomia, tornando a ajuda constante indispensável para atividades básicas e para a garantia da segurança.
A pesquisa da UFAL revelou que adolescentes que necessitam de um nível de suporte mais elevado são justamente os que enfrentam maiores riscos à saúde devido à carência de informação sobre sexo e sexualidade. Andrea Hercowitz, hebiatra e coordenadora de pós-graduação em Medicina do Adolescente da Faculdade Israelita de Ciências da Saúde Albert Einstein (FICSAE), explica que um indivíduo com alto grau de suporte pode ter dificuldades em relatar um assédio, por exemplo, por não conseguir nomear corretamente as partes do corpo ou por não compreender a natureza do ocorrido.
O diálogo e o conhecimento como ferramentas essenciais
A estratégia mais eficaz para mitigar os riscos decorrentes de uma educação sexual inadequada é, sem dúvida, o estabelecimento de um diálogo aberto e contínuo desde a infância. A Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) recomenda que a discussão sobre sexualidade tenha início por volta dos cinco anos de idade, em um processo que deve envolver familiares, educadores e profissionais de saúde.
“Não se trata de abordar a relação sexual com uma criança. Nessa faixa etária, o foco da educação sexual é promover o conhecimento do próprio corpo, ensinando a identificar cada parte – como cabeça, nariz, orelhas, mamas, pênis e vagina – para que ela possa, então, compreender a importância do consentimento em relação ao toque”, ressalta Andrea Hercowitz.
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