A discussão sobre sexo e sexualidade, muitas vezes evitada na juventude, torna-se um desafio ainda maior e mais delicado quando se trata de adolescentes diagnosticados com Transtorno do Espectro Autista (TEA). A ausência desse diálogo aberto não só abre portas para a disseminação de informações equivocadas, como também expõe esses jovens a riscos significativos para sua saúde, conforme aponta uma pesquisa recente da Universidade Federal de Alagoas (UFAL), divulgada em novembro na revista científica Ciência & Saúde Coletiva.
Adolescentes autistas vivenciam as transformações físicas e hormonais da puberdade de maneira análoga aos seus pares neurotípicos. Contudo, a percepção e a compreensão dessas mudanças podem ser distintas. O surgimento de pelos, a primeira menstruação ou as alterações na voz, por exemplo, podem não ser imediatamente assimilados. Adicionalmente, o padrão de interação social frequentemente associado ao TEA, marcado por timidez e inibição, pode criar barreiras para que conversem abertamente sobre esses temas com seus colegas.
Essa dificuldade em decodificar as nuances das interações sociais pode levar a uma maior vulnerabilidade na interpretação de limites, da noção de privacidade e das expectativas em relação ao próprio corpo e ao dos outros. Consequentemente, esses jovens ficam mais suscetíveis a contrair Infecções Sexualmente Transmissíveis (ISTs), a enfrentar gestações não planejadas, a serem vítimas de violência e a terem dificuldade em identificar e relatar situações de abuso.
Níveis de Suporte e Vulnerabilidade Ampliada
A classificação dos níveis de suporte no TEA reflete a intensidade da assistência contínua necessária ao indivíduo. No Nível 1, por exemplo, o suporte é considerado baixo, com desafios pontuais na comunicação social e rigidez comportamental, mas com preservação da autonomia em âmbitos como estudo e trabalho. O Nível 2 demanda um suporte moderado, com prejuízos mais evidentes na comunicação e na adaptação a novas situações, exigindo auxílio frequente no cotidiano. Já o Nível 3 indica a necessidade de suporte elevado, caracterizado por limitações significativas na comunicação e autonomia, tornando essencial o acompanhamento constante para atividades básicas e para garantir a segurança.
A pesquisa revelou que adolescentes que necessitam de um nível de suporte mais elevado são os que enfrentam os maiores riscos à saúde devido à carência de informação sobre sexo e sexualidade. A hebiatra Andrea Hercowitz, que coordena o programa de pós-graduação em Medicina do Adolescente na Faculdade Israelita de Ciências da Saúde Albert Einstein (FICSAE), destaca que um indivíduo com alto grau de suporte pode ter dificuldade em descrever um assédio sofrido, seja por não saber nomear corretamente as partes do corpo ou por não compreender a natureza do ocorrido.
A Importância do Diálogo e do Conhecimento Precoce
A estratégia mais eficaz para mitigar os riscos associados a uma educação sexual inadequada é a promoção de um diálogo aberto e contínuo desde os primeiros anos de vida. A Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) preconiza que a discussão sobre sexualidade deva iniciar por volta dos 5 anos de idade, um processo que deve ser conduzido de forma colaborativa por familiares, educadores e profissionais de saúde.
“Nesta fase inicial, o foco da educação sexual não é a relação sexual em si, mas sim a construção do conhecimento sobre o próprio corpo. É essencial ensinar a identificar cada parte, como cabeça, nariz, orelhas, mamas, pênis e vagina, para que a criança possa, então, compreender a relevância do consentimento em qualquer tipo de toque”, ressalta Andrea Hercowitz.
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