O cantor João Lucas utilizou suas redes sociais para abordar a onda de comentários homofóbicos e misóginos que tem recebido. Casado com Sasha Meneghel, o artista, que se declara heterossexual e cisgênero, observou que grande parte das mensagens hostis tenta ofendê-lo associando-o a características consideradas femininas.
Essa observação o levou a refletir sobre as raízes do problema, que, segundo ele, transcendem o ambiente virtual e se manifestam nas dinâmicas sociais. João Lucas destacou como, desde cedo, a masculinidade é frequentemente atrelada a noções de virilidade, força e vigor, fazendo com que qualquer traço de sensibilidade ou comportamento fora desse padrão seja visto como um atentado à identidade masculina.
“Crescemos ouvindo frases como ‘chorando igual menininha’ ou ‘segura que nem homem’, o que nos ensina a demonizar e rejeitar tudo que é visto como feminino, pois isso é frequentemente associado à fraqueza, sensibilidade excessiva e falta de controle”, explicou o cantor.
Ele acrescenta que essa construção social leva os meninos a acreditarem que “ser homem é simplesmente não ser feminino”, o que implica reprimir emoções, evitar a expressão intensa e rejeitar a vulnerabilidade. Essa “masculinidade adoecida”, conforme descrita por João Lucas, pode se manifestar em violência, silêncio, dominação e isolamento, como uma forma de mascarar frustrações, fraquezas, depressão e ansiedade.
O artista pontuou que as críticas que recebe, especialmente relacionadas ao seu trabalho artístico e escolhas de vestuário, refletem uma mudança cultural. “Se olharmos para a época dos nossos pais e avós, o cenário era diferente. Músicos e atletas ousavam em suas aparências, explorando cores, brilhos e cabelos compridos, e isso era visto com admiração. Flertar com o feminino era algo positivo”, lembrou.
No entanto, João Lucas acredita que essa aceitação diminuiu. Ele cita estudos que sugerem que a apreciação do feminino era mais presente em um contexto onde as mulheres possuíam menos poder. “Enquanto o feminino não representava uma ameaça ao status social ou à estrutura vigente, ele podia ser admirado”, afirmou.
O cantor relacionou a perda de referências claras de masculinidade saudável, a crescente competição de mercado com a ascensão feminina, e a frustração afetiva e sexual, somadas à falta de apoio emocional, a um aumento da hostilidade contra as mulheres. “Para homens inseguros, o feminino deixa de ser uma admiração e passa a ser uma ameaça”, concluiu.
Para combater essa tendência, que, segundo ele, contribui para a violência contra a mulher, João Lucas defende um diálogo social mais amplo e a implementação de uma educação que aborde essas questões desde a infância dos meninos.

