A Netflix Brasil adicionou um novo capítulo à aclamada saga de amor da família Bridgerton com a estreia da quarta temporada. Desta vez, os holofotes se voltam para Benedict Bridgerton, o segundo filho da distinta linhagem londrina, e seu envolvimento com a enigmática Sophie Beckett. A temporada, que já pode ser conferida na plataforma de streaming, apresenta uma alteração notável na ordem narrativa em relação aos livros de Julia Quinn. A história de Benedict, originalmente a terceira a ser contada no universo literário sob o título “Um Perfeito Cavalheiro”, foi antecipada, cedendo o espaço para a terceira temporada focada em Colin e Penelope. Essa inversão, embora não comprometa drasticamente o enredo geral, exige adaptações pontuais de cenas e momentos para se integrar à linha do tempo da série.
A jornada romântica de Sophie e Benedict, que compõe a primeira parte desta temporada, consegue capturar alguns dos momentos cruciais do início de sua relação conforme descrito nos livros. Contudo, uma sensação de incompletude paira sobre a narrativa, como se algo essencial estivesse faltando para a plena satisfação do espectador. Apesar das adaptações, algumas escolhas de roteiro se destacam positivamente. A introdução de Sophie, por exemplo, difere significativamente da obra original. Enquanto no livro sua condição de criada e o conflito com a madrasta são apresentados desde cedo, a série opta por revelar sua identidade gradualmente, sob o olhar intrigado de Benedict, que a percebe inicialmente como uma figura misteriosa da alta sociedade. Essa abordagem mantém o suspense para quem não leu os livros, desvendando a história de Sophie Beckett apenas em momentos posteriores.
Eventos marcantes do livro, como a estadia na cabana, o retorno a Londres e o pedido inicial de Benedict, estão presentes na adaptação. No entanto, a sensação de que “algo falta” persiste, pois os acontecimentos centrais desses momentos, ou sua ordem, foram alterados. Embora adaptações sejam inerentes à transposição para a tela, a execução em alguns pontos deixa o público com a expectativa de clímax que não se concretizam no tempo esperado, gerando uma experiência de “quase lá”. A mudança no contexto e momento de um dos pedidos mais aguardados de Benedict a Sophie é um exemplo dessa dissociação, cujo impacto positivo ou negativo caberá a cada espectador avaliar.
A atuação de Yerin Ha como Sophie tem sido alvo de discussões, mas a atriz demonstra capturar a essência e a personalidade da personagem. A química com Luke Thompson, intérprete de Benedict, é palpável, com diálogos, provocações e demonstrações de afeto presentes. O que parece ter faltado, no entanto, foi o “molho especial” que caracteriza as relações em Bridgerton, conferindo uma certa falta de tempero à dinâmica do casal. Essa lacuna, possivelmente atribuída à direção e ao roteiro, impacta a primeira metade da temporada, deixando um sabor de “sem sal”.
A introdução da família Penwood, incluindo Posy (Isabelle Wei), que prepara sutilmente o terreno para a segunda parte da temporada, e Lady Araminta Gun (Katie Leung), cuja vilania é apresentada com nuances do livro, mas com potencial para maior exploração, também compõem o cenário. Lady Araminta, embora represente a “bruxa má” da história, é retratada com menos crueldade do que em sua contraparte literária.
Paralelamente ao arco principal, o desenvolvimento dos demais personagens avança. Eloise Bridgerton, com indícios de que sua história será o foco da próxima temporada, parece se conformar com a perspectiva da solteirice, mas a percepção do romance de Benedict pode intensificar sua reflexão sobre a solidão. Colin e Penelope Bridgerton, apesar de suas participações mais limitadas nos quatro primeiros episódios, continuam a ter suas vidas de casados exploradas, com Penelope lidando com as pressões de manter sua identidade como Lady Whistledown. Francesca, por sua vez, tem sua trajetória sutilmente delineada, preparando o terreno para futuras temporadas que explorarão temas centrais de seu livro.
Um dos destaques surpreendentes é a evolução de Lady Bridgerton, que nesta temporada aprofunda seu interesse em Marcus Anderson, irmão de Lady Danbury. Seu arco explora as incertezas, medos e confusões que acompanham um novo amor em sua vida, o que, apesar de ocupar tempo de tela que poderia ser dedicado ao casal principal, oferece um vislumbre cativante de sua redescoberta pessoal.
Em suma, a primeira parte da quarta temporada de Bridgerton gera sentimentos divididos. Embora com momentos apreciáveis, a narrativa apresenta lacunas significativas. A história de Sophie e Benedict, uma das favoritas dos fãs, conta com atores talentosos, mas cenas importantes apressadas, diálogos superficiais e a ausência de um tempero romântico mais acentuado deixam a sensação de “esperava mais”. A expectativa agora recai sobre a segunda metade da temporada, com a esperança de um desenvolvimento mais apimentado e a entrega de momentos cruciais que tanto cativam os leitores dos livros.

