Um dado alarmante assombra o Brasil: a cada dia, pelo menos quatro mulheres perdem a vida em decorrência do feminicídio. Diante dessa realidade sombria, o Palácio do Planalto foi palco, na última quarta-feira (4), do lançamento do Pacto Nacional Brasil de Enfrentamento ao Feminicídio, um movimento que busca catalisar ações concretas contra essa violência.
Representando a força e a perspectiva da juventude, a rapper Ebony marcou presença no evento. Dividindo o palco com autoridades como o presidente Lula e os presidentes do Legislativo e Judiciário, ela trouxe uma mensagem contundente: “O feminicídio nada mais é do que o último estágio de um problema que começa na criação dos meninos”.
Dados recentes do Ministério da Justiça e Segurança Pública pintam um quadro preocupante: em 2025, o país registrou um número recorde de 1.518 vítimas de feminicídio, elevando a média diária para quatro assassinatos motivados por questões de gênero. Este índice supera o de 2024 e acentua uma tendência perversa, que vitima principalmente mulheres negras, correspondendo a 63,6% do total, e jovens na faixa etária de 18 a 44 anos. A casa, local que deveria ser de segurança, concentra mais de 60% dos casos, sendo que em quase 80% das ocorrências, o agressor é o parceiro ou ex-parceiro.
Em sua intervenção, Ebony ressaltou a necessidade de uma transformação cultural profunda, questionando a percepção sobre o que significa ser mulher no Brasil. “Ser mulher e ser livre não deveriam ser sentenças de morte, mas o básico da nossa existência”, declarou, defendendo que a luta contra a violência transcende a punição do agressor, focando na erradicação do machismo desde a infância. “Não adianta só punir o agressor depois do crime, a gente precisa parar de fabricar esses agressores dentro de casa, na escola e na música que a gente consome”, pontuou.
A rapper também deu voz às mulheres periféricas, destacando a precariedade da proteção estatal em suas realidades: “Para a mulher preta da Baixada, a proteção do Estado muitas vezes é um conceito abstrato que não chega no portão de casa”. Ao concluir sua participação, ela fez um chamado às autoridades: “Estar aqui hoje é um passo, mas a vitória real vai ser quando nenhuma de nós precisar de um pacto para não ser morta por quem dizia que nos amava”.
O evento no Planalto não se limitou a discursos. Um documento foi assinado pelos representantes dos Três Poderes, formalizando um compromisso para enfrentar o feminicídio e garantir que a urgência da questão seja atendida. O próprio governo reconhece que, apesar do endurecimento das leis, a prevenção efetiva da violência contra a mulher depende do fortalecimento da rede de proteção e da desconstrução do machismo que ainda guia o comportamento em sociedade.
O presidente Lula, durante o evento, enfatizou a importância da intervenção do Estado em casos de violência doméstica, apelando para que os homens assumam a responsabilidade e se somem ao combate. Para auxiliar quem precisa, é crucial conhecer os canais de denúncia e apoio: o Ligue 180 (Central de Atendimento à Mulher), o WhatsApp do 180 (61) 9610-0180, as Delegacias da Mulher (DEAM) e aplicativos de segurança estaduais.

