Em um mundo em constante movimento, onde as experiências e os cenários mudam rapidamente, manter uma conexão genuína consigo mesmo pode parecer um desafio. A transição entre diferentes fases da vida, grupos sociais e visões de mundo nos convida a uma reflexão: como preservar essa ligação fundamental com o nosso eu interior?
A resposta pode estar em algo tão simples quanto um caderno e uma caneta, acompanhados de um momento dedicado exclusivamente a si. Embora a prática de manter um diário seja frequentemente associada à infância, a vida adulta muitas vezes nos leva a buscar refúgios em estímulos externos – músicas, filmes, redes sociais – em um esforço inconsciente para evitar o contato com nossas próprias reflexões, medos e angústias.
A escrita emerge, então, como uma poderosa ferramenta terapêutica. Ao ser utilizada como um espaço para desabafar e explorar os próprios sentimentos, ela se transforma em uma jornada rumo ao autoconhecimento. Desligar o modo automático e dedicar tempo para articular emoções, mesmo que de forma árdua e dolorosa, é um passo crucial para a compreensão de problemas e a elaboração de soluções.
Nina Orlando, poetisa e atriz com uma profunda paixão pela escrita, compartilha sua perspectiva: “Escrevendo, eu só consigo ser íntima. Minha escrita é onde eu existo sem precisar me defender. É onde eu posso ser contraditória, frágil, dura, sensível, tudo ao mesmo tempo”, declara. Para ela, o ato de escrever permite um reencontro com o “eu” presente, em diálogo com todas as suas versões passadas, em sua forma mais autêntica.
A escrita, segundo Orlando, funciona como uma espécie de máquina do tempo ou fotografia, permitindo revisitar memórias e sentimentos. “É como se eu tivesse conversando com quem eu era e com o que eu sentia. Ver os erros de ortografia, identificar as pessoas, poder conhecer vários detalhes bobos da vida de uma outra versão de mim. Existe uma certa viagem no tempo aí. E, com certeza, existe uma conexão também”, reflete a artista.
Para aqueles que desejam iniciar ou reacender essa prática, Nina sugere uma tradição pessoal: escrever uma carta para o seu “eu” futuro na véspera de seu aniversário, para ser lida somente no dia seguinte. Essa ritualística anual possibilita uma retrospectiva das transformações vividas em um ano, fortalecendo a autocompreensão.
Em um cenário de aceleração constante e influências externas avassaladoras, a escrita oferece um convite à introspecção: questionar, se perder e, acima de tudo, se reencontrar nesse processo transformador.

